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Falta de remédios em Cuba: ‘Estão nos matando aos poucos’

Falta de remédios em Cuba: ‘Estão nos matando aos poucos’

Os cubanos passaram a recorrer cada vez mais ao mercado ilegal para obter medicamentos, por causa da falta de produtos em hospitais e farmácias estatais. Em Havana, lojas clandestinas se multiplicaram pelas ruas, vendendo remédios, produtos de higiene e insumos hospitalares básicos, geralmente trazidos do exterior e vendidos sem garantia de origem nem necessidade de receita.

Para a maioria dos habitantes da ilha, esses pontos de venda deixaram de ser uma alternativa esporádica e se tornaram a principal, e em alguns casos única, forma de acesso a tratamentos de saúde.

Eduardo Moré, 57, é aposentado e recebe uma pensão mensal de 1.500 pesos (cerca de R$ 15 na cotação informal) do governo cubano por ser portador de HIV e ter insuficiência renal. Além dessas doenças, ele sofre de hipertensão. Ele recebe gratuitamente do Estado os medicamentos para o tratamento do HIV e, apesar dos apagões, mantém a hemodiálise três vezes por semana. Já os remédios para controlar a pressão e a retenção de líquidos passaram a ser comprados no mercado paralelo desde o ano passado. Os dois medicamentos de que precisa – Captopril, para hipertensão, e o diurético Furosemida – custam cerca de 500 pesos (R$ 5) cada um, ou seja, dois terços de sua renda mensal.

“Tenho que escolher entre comprar os medicamentos ou me alimentar. Os dois não dá”, afirma Moré, que já não recebe a cesta básica do governo desde o fim do ano passado. Ele vive sozinho no bairro Centro Havana, uma das regiões mais afetadas pela crise energética imposta pelo bloqueio da entrada de petróleo na ilha, promovido pelos EUA. Enfrenta cortes de energia de 15 a 20 horas por dia, o que compromete o abastecimento de água, dependente de bombas elétricas. “Os Estados Unidos dizem que querem pressionar o governo cubano, mas quem sofre é o povo. Que ser humano aguenta ficar sem comida, sem água, sem luz e ainda sem medicamentos? Estão nos matando aos poucos”, desabafa.

No ano passado, Moré precisou de uma transfusão de sangue após queda no nível de plaquetas. O banco de sangue do hospital onde fazia hemodiálise não tinha bolsas do seu tipo. Familiares arrecadaram dinheiro para comprar o insumo no mercado paralelo: uma única bolsa custou cerca de 10 mil pesos cubanos, o equivalente a US$ 20 (cerca de R$ 100).

Rudy Gonzales, 38, motorista de triciclo em Havana, levou uma facada no braço em julho do ano passado durante uma tentativa de assalto. Procurou atendimento de emergência no Hospital Clínico Cirúrgico Hermanos Ameijeiras, principal unidade hospitalar do país, mas não conseguiu ser atendido por falta de insumos básicos. “Fui ao hospital de madrugada, sangrando, e não tinha nada. Me mandaram comprar fios cirúrgicos e agulhas para sutura e voltar, porque não tinham como me atender sem esses produtos”, relata. “Antes, eu ia ao hospital e tudo era gratuito. Agora, temos que pagar por tudo.”

O mercado paralelo de itens médicos ganhou força após a morte de Fidel Castro, em 2016, e se intensificou no primeiro mandato de Donald Trump no ano seguinte. A partir desse período, a escassez de medicamentos deixou de ser pontual e passou a afetar de forma recorrente a ilha.

A reportagem visitou uma das bancas ilegais de medicamentos em Havana Velha, bairro mais turístico, e conversou com uma aposentada de 64 anos que importa remédios de países como Panamá, México e Estados Unidos para revendê-los. Ela falou sob condição de anonimato e contou que, além de garantir o sustento, os importados são necessários para ela, que é hipertensa, diabética e com cardiopatia.

Mas a maioria dos cubanos não consegue acessar medicamentos no mercado paralelo. Uma cartela de dipirona custa cerca de 700 pesos (R$ 7); a de paracetamol, 500 (R$ 5). O salário mínimo oficial no país é de 2.100 pesos por mês. Com a alta inflação e a desvalorização da moeda frente ao dólar, esse valor equivale a cerca de US$ 4 (aproximadamente R$ 20), o que reduz drasticamente o poder de compra.

Um médico cardiologista do Hospital Clínico Cirúrgico Hermanos Ameijeiras disse à reportagem que as condições se agravaram desde janeiro. Ele relata que profissionais de saúde têm recorrido aos próprios recursos para comprar insumos e medicamentos para pacientes. Em alguns casos, os custos são repassados aos pacientes, que precisam reembolsar os médicos para receber tratamento. “É uma privatização forçada do sistema de saúde cubano. O capitalismo já chegou aqui, mas da forma mais desigual e cruel. Quem tem dinheiro sobrevive; quem não tem, só resta rezar”, lamenta o cardiologista, que falou em anonimato.

Em entrevista à agência Associated Press em fevereiro, o ministro da Saúde cubano, José Ángel Portal Miranda, afirmou que as sanções dos EUA ameaçam a “segurança humana básica”. Segundo ele, cerca de 5 milhões de cubanos com doenças crônicas podem ter seus tratamentos comprometidos.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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