Bancos elevam provisão contra calotes e apertam crédito

O cenário não está favorável para quem busca ou precisa pagar um empréstimo, e a expectativa é de que não haja melhora tão cedo. Essa é a avaliação de economistas, analistas e dos próprios bancos privados para o restante de 2026, diante de juros mais altos que o esperado e do elevado comprometimento da renda das famílias brasileiras.
Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, afirmou durante teleconferência com analistas nesta quarta-feira (5) que o ciclo do crédito será desafiador. Segundo ele, o mercado vive um excesso de crédito e a prioridade é evitar o risco de inadimplência futura, mesmo que isso signifique abrir mão de crescimento e participação de mercado.
O Bradesco também sinalizou cautela. O presidente Marcelo Noronha disse a jornalistas nesta quinta-feira (6) que o banco está reduzindo o crédito pessoal e priorizando operações com garantia.
Essa postura se reflete nas reservas para perdas com calotes. No segundo trimestre, os três maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, provisionaram juntos R$ 28,7 bilhões, um aumento de 12,4% em relação ao mesmo período de 2025. A carteira de crédito dessas instituições cresceu 9,4%, chegando a R$ 3,37 trilhões.
Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, avalia que o momento é difícil para o setor bancário, com a inflação corroendo a renda das famílias e os juros altos reduzindo a capacidade de financiamento das empresas.
Em maio, a inadimplência geral do sistema financeiro atingiu 4,74%, o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Em junho, o indicador caiu para 4,68% após o início do Desenrola 2.0, mas segue acima da média histórica de 3,29%.
Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, aponta que o percentual reflete a Selic em 14% e a precificação de juros futuros altos devido à percepção de risco fiscal no país. Ele também destaca a inflação dos alimentos, que compromete mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo.
O comprometimento de renda das famílias com bancos chegou a 49,93% em janeiro, o maior valor da série do BC iniciada em 2005. O percentual se manteve próximo disso até maio, último dado disponível.
Apesar do desemprego baixo, a expectativa é de desaceleração da atividade econômica. Ataliba diz que a tendência é a inadimplência piorar ou se estabilizar no segundo semestre.
Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, afirma que o fim da guerra no Oriente Médio e um El Niño menos intenso poderiam permitir mais cortes na Selic, mas ressalta que a discussão sobre juros mais baixos passa pelo fiscal. Os bancos afirmam esperar um ajuste fiscal no próximo mandato presidencial, independentemente do candidato eleito.
Diante do cenário, as instituições financeiras estão restringindo o crédito para consumidores de baixa renda e preferindo empréstimos com garantia, como consignado CLT, financiamento imobiliário e de veículos, além de linhas com garantia do governo via FGI e FGO para pequenas e médias empresas.
O Santander teve o pior balanço entre os pares no segundo trimestre, com lucro abaixo do esperado devido ao maior gasto com provisões. Segundo a XP, a carteira de crédito do banco está praticamente estagnada e a normalização do custo do crédito deve levar alguns trimestres.
O Itaú, que tem o menor índice de inadimplência entre os pares, de 1,9%, também apresentou deterioração. O banco revisou para baixo a projeção de crescimento da receita com serviços e seguros para 2026, de 5% a 9% para 2% a 5%, citando maior volatilidade no mercado e menor receita com tarifas de cartões.
O Bradesco enfrenta inadimplência maior, com o custo de crédito dos clientes subindo para 5,9%. O banco elevou o percentual de créditos com garantia de 58,5% para 61% da carteira, mas os empréstimos ao varejo ainda preocupam, segundo o Citi. Apesar disso, o Bradesco mantém a previsão de expansão de 8,5% a 10,5% para a carteira de crédito no ano, esperando uma desaceleração gradual nas concessões após o crescimento de 11,6% no primeiro semestre.


