A Justiça italiana negou a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli, decisão que representa um novo revés para o ministro Alexandre de Moraes e amplia as críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) em um momento de desgaste da imagem da corte.
Juízes de última instância da Itália apontaram problemas no papel do ministro no caso da invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo qual Zambelli foi condenada. Um documento obtido pela Folha cita “múltiplos elementos que levam a duvidar da imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal”.
Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que a medida reflete a estrutura do Judiciário brasileiro e pode servir de argumento para críticos e opositores do tribunal. Na decisão, os italianos mencionam a dupla função de Moraes, que foi membro da Primeira Turma que julgou a ex-deputada e também vítima do crime atribuído a ela. Zambelli foi condenada por agir para emitir um mandado de prisão falso contra o ministro.
A cientista política Marjorie Marona, da Unirio, situa a negativa no contexto das pressões que Moraes tem enfrentado, incluindo ataques do bolsonarismo, pedidos de impeachment no Senado e sanções dos Estados Unidos. Ela destaca que, agora, “quem levanta dúvida sobre a imparcialidade do ministro ou da corte não é um ator político diretamente interessado. É uma corte de cassação de uma democracia consolidada”. Isso, segundo ela, “muda o repertório disponível para os críticos do Supremo”.
Mesmo crítica da decisão, Marona afirma que o entendimento da corte italiana revela como o custo do desenho institucional brasileiro está sendo cobrado fora do país. No ano passado, a Espanha também negou um pedido de extradição do Brasil no caso do blogueiro Oswaldo Eustáquio Filho. Em 2024, os Estados Unidos disseram que não extraditariam o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. E, neste ano, a Argentina concedeu refúgio a um foragido da Justiça por envolvimento nos atos de 8 de janeiro.
Em nota, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que o processo contra Zambelli “transcorreu em estrita observância à Constituição, ao devido processo legal, ao contraditório, à ampla defesa e aos compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro”.
Para Antônio José Teixeira Martins, professor de direito penal da UFRJ e da Uerj, parte do problema é fruto do arranjo institucional brasileiro. O Supremo acumula competências criminais e acaba julgando ataques dirigidos aos próprios ministros. “O Supremo Tribunal Federal tem uma competência criminal ampla. Ele tem funções de tribunal constitucional, mas também é um tribunal destinado a julgar determinadas pessoas que ocupam ou ocuparam determinados cargos. Como é a última instância, ele acumula essas funções. Não há uma instância revisora”, disse.
O professor defende, porém, que é preciso fazer distinções. “A Corte de Cassação italiana não é, nem pode se arvorar a ser uma instância revisora dos processos do Brasil.”
A professora Ana Laura Barbosa, da ESPM, avalia que o caso de Zambelli atingiu o Judiciário como instituição, mais especificamente o CNJ. “Consequentemente nenhum juiz deste país poderia julgá-la”, afirma. Ela considera que a decisão se baseia em premissas equivocadas. “As principais justificativas dessa negativa da extradição me parecem ter mais relação com uma aversão ao sistema brasileiro do que propriamente a forma como o processo foi conduzido.”
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) criticou o STF após o anúncio. “Moraes foi vítima e julgador ao mesmo tempo”, escreveu em rede social. A corte italiana ainda vai analisar um segundo pedido de extradição de Zambelli, relacionado à condenação por sacar uma arma de fogo e apontar para um homem na véspera do segundo turno das eleições de 2022.
