Pular para a matéria
Entre NotíciaNotícias em tempo real quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Morte de menina em terapia genética na China gera investigação
Acontece

Morte de menina em terapia genética na China gera investigação

A informação faz parte de uma investigação conjunta da revista Science e da plataforma Retraction Watch, que monitora retratações de artigos científicos.

Por · · 3 min de leitura

Um cientista chinês da Universidade de Jiao Tong de Xangai está sob investigação após relatos de que um teste experimental de edição genética causou a morte de uma menina de seis anos. A Escola de Medicina da instituição confirmou que o caso não foi mencionado em estudo publicado em revista científica. A denúncia representa um revés para as ambições da China de se tornar uma potência em biotecnologia.

A criança, identificada pelo pseudônimo "Mei", morreu em março de 2025, cerca de uma semana depois de receber uma infusão espinal de bilhões de vírus modificados para atingir o cérebro. A informação faz parte de uma investigação conjunta da revista Science e da plataforma Retraction Watch, que monitora retratações de artigos científicos. Segundo os pais, a menina sofreu uma reação imunológica ligada ao tratamento. A terapia experimental buscava corrigir uma condição genética rara que atrasava o desenvolvimento cognitivo da criança.

O neurocientista Zilong Qiu, pesquisador responsável pelo estudo, publicou um artigo sobre a terapia aplicada em animais na revista Nature, mas não citou o caso de Mei. Até o momento, Qiu não se manifestou publicamente sobre as denúncias.

Em nota, a Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai afirmou que criou um grupo de trabalho para investigar o incidente. A instituição declarou que se opõe a pesquisas que violem a ética científica e que adotará medidas severas conforme o resultado das apurações.

Setes especialistas em genética, virologia e bioética analisaram o estudo publicado na Nature. Eles apontaram que o cientista minimizou os riscos da terapia ao conversar com os pais, ignorou alertas vindos de testes com animais e seguiu com o tratamento mesmo diante da baixa chance de sucesso.

A edição genética é uma tecnologia que permite alterar, remover ou adicionar partes do DNA de um organismo. A técnica mais conhecida, a CRISPR-Cas9, funciona como uma "tesoura molecular" e recebeu o Prêmio Nobel de Química em 2020.

O relatório da Science e do Retraction Watch indica que os pais de Mei pagaram mais de 800 mil dólares para financiar o experimento e não foram informados adequadamente sobre os riscos. Documentos oficiais e relatos da família mostram que o hospital permitiu o tratamento sob uma regra que não exige aprovação de reguladores nacionais. Após a morte da criança, a unidade de saúde pagou uma multa de valor baixo a uma autoridade local, mas Qiu não sofreu sanção pública.

O cientista pretendia desenvolver a primeira terapia de edição genética do mundo voltada ao cérebro. A ideia era reescrever o gene mutado nas células nervosas da menina para que ela produzisse uma proteína essencial.

O caso é mais um golpe nas metas da China de competir com os Estados Unidos no setor de biotecnologia. Em 2018, o biofísico He Jiankui, conhecido como "Dr. Frankenstein chinês", foi condenado a três anos de prisão por produzir bebês com genes editados em segredo. A experiência resultou em gêmeas e, depois, em um terceiro bebê de outro casal.

Em setembro, o Conselho de Estado da China publicou regras que proíbem a modificação de DNA em células reprodutivas humanas, como espermatozoides, óvulos e embriões. Esse era o tipo de pesquisa realizada por Jiankui antes da prisão. O presidente chinês, Xi Jinping, definiu como meta colocar o país na liderança global de ciência e tecnologia até 2049, ano do centenário da revolução que levou o Partido Comunista ao poder.

Leia também: confira o umbral de entretenimento e veja o umbral de casa.

Espalhe: WhatsApp Facebook X
Mais sobre issomais de Acontece