Notícias em tempo realterça-feira, 16 de junho de 2026
Entre Notícia
Notícias, entretenimento e cultura atualizadas o dia todo
Notícias

Vorcaro usou ‘omissão sistêmica’ para fraudar bilhões

O ministro do STF, Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém viu as irregularidades do Banco Master. “O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de…

Por Entre Notícia · · 3 min de leitura
Vorcaro usou ‘omissão sistêmica’ para fraudar bilhões

O ministro do STF, Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém viu as irregularidades do Banco Master. “O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo”, disse.

Especialistas apontam que Daniel Vorcaro e seus sócios souberam usar a favor do Master os sistemas regulatório, político e jurídico. Esses sistemas incentivam a omissão, não a denúncia, segundo análise. O caso se tornou público com a liquidação do Master e a prisão de Vorcaro em novembro do ano passado.

A fraude bancária é considerada a mais custosa da história do país. As estimativas indicam prejuízos de R$ 60 bilhões. Esse valor supera as principais crises bancárias dos últimos 20 anos e as perdas da Lava Jato, que ficaram entre R$ 29 bilhões, segundo o TCU, e R$ 42 bilhões, segundo a Polícia Federal.

O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, afirma que a dinâmica da omissão contaminou as estruturas de regulação nos últimos anos. Ele apresenta duas leituras para o caso: a primeira é a do escândalo, com falhas individuais e conluio. A segunda, mais técnica, mostra que os sistemas não oferecem incentivos à reação. Cada agente percebe que tem mais a perder vendo do que não vendo.

O caso Master produziu exemplos dessa dinâmica. Em 2024, três gestores da Caixa Asset foram afastados após redigirem um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do banco de Vorcaro. Em 2025, o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, votou contra um caso envolvendo o Master e renunciou nove dias depois. O interino Otto Lobo reverteu o voto e foi indicado por Lula para a presidência da autarquia.

O economista Marcos Lisboa aponta o risco de sanções para quem tenta agir preventivamente. Servidores que ousam atuar podem ser acionados na Justiça ou enfrentar questionamentos do TCU. O próprio TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”.

Nos Estados Unidos, quem faz um alerta preventivo não sofre penalidades. A False Claims Act garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act criou o programa de whistleblowers na SEC, com prêmios de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão.

Marcos Lisboa também destaca o tratamento difuso da responsabilidade solidária no mercado financeiro. Segundo ele, corretoras são responsáveis pelos produtos que oferecem. As demonstrações financeiras do Master mostravam riscos: em 2023, cerca de 80% da carteira de títulos era composta por ativos de baixa liquidez. Em 2024, dos R$ 18,4 bilhões em depósitos interfinanceiros, R$ 17,9 bilhões vinham de partes relacionadas.

O economista Roberto Teixeira da Costa afirma que a fragilidade do Master era identificável. Segundo ele, um CDB que paga muito acima do mercado já é um alerta. Muitos investidores aceitaram taxas elevadas por causa da proteção do FGC, que cobre até R$ 250 mil por CPF. Ele defende que o fundo seja recalibrado para reembolsar 75% do valor investido.

O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, destaca a presença de altas autoridades na rede de influência de Vorcaro. A rede reuniu representantes nos três Poderes. Para France, isso serve para intimidar e desincentivar investigações. “Vorcaro inaugurou um novo patamar de captura dos Poderes da República”, afirma.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X
Leia também